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EU |
NOME: Valkiria
JOGADOR:
Renata
CRONICA:
Ladainhas da Lagarta Viajante
NATUREZA:
eu
COMPORTAMENTO:
indefinido
CLA:
o meu
GERACAO:
1991
REFUGIO:
sobrado paulistano
CONCEITO:
universitária geminiana
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Historico |
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VIAJANDO |
Então, fez-se o silêncio.
Não havia nada em lugar nenhum. Não havia nenhum som quando o silêncio foi criado. Então, ninguém ouviu, mas falou-se a primeira palavra:
- Moita.
Como não havia ninguém para ouvi-la, a palavra Moita não viu sentido algum em manter-se como uma palavra solta vagando pelo nada, que já não era mais silencioso, e criou seu próprio significado. De uma vez, tal palavra criou os conceitos de cor – a sua era verde -, forma – a sua era a de várias hastes ásperas -, cheiro – o seu era “cheiro de mato” – e gosto – o seu, só um boi poderia dizer. Agora a palavra poderia dizer que era uma moita, nascida inteira. Sua própria deusa.
Cansada de tanto esforço mental, a moita decidir dormir à noite – um ambiente parecido com o silêncio. Mas o pensamento não a abandonava e ela começou a sonhar. Sonhou que era uma boina, que em forma de palavra era até que muito parecida com a sonhadora, mas que já tinha um sentido, o qual por sua vez era totalmente diferente. Significava algo totalmente louco no universo que a moita havia criado até então, o qual na verdade consistia apenas nela própria. A moita que sonhava cursou-se à boina sonhada e vice-versa, dizendo ambas:
- Namasté.
O Deus que está em mim cumprimenta o Deus que está em você.
Foi criado o respeito. Quando a moita acordou e a boina sumiu, o respeito permaneceu. A moita por toda a vida ficou se perguntando se ela era uma moita que sonhou que era uma boina ou se era uma boina sonhando que era uma moita. Teve então um “déjà vu”, lembrando-se de que naquele momento em algum universo paralelo ouviu uma frase semelhante, dita por um tal Raul, que também a ouvira de um sábio chinês – ou uma borboleta?
Por essa semelhança de pensamento e pela semelhança entre significantes – além da crise de identidade -, passou a chamar-se boina-moita Raul.
Boina-moita Raul? Boi na moita Raul.
Na moita havia um boi chamado Raul.
No boi Raul havia uma moita.
Dentro do boi rolava uma química. A moita agora corria pelo sangue em forma de nutrientes. A moita agora faz parte do boi Raul, é o boi.
Não mais existe uma boina-moita, mas sim um boi em lugar algum. Raul, diferente do silêncio, da palavra, da moita, da boina, que já nasceram do nada, não estava acostumado à solidão. Raul tinha apenas a noite para conversar e esta se tornou sua amiga, pois “visa sub obscurum noctis, pecudesque locutae”. Raul falava latim, apesar de não ser um cachorro.
Mas como os cachorros, queria cantar para Lua, filha da noite.
O boi Raul metido a cachorro com espírito de boina-moita surgida do silêncio tinha seu som apreciado por Lua. Mas uma noite, Lua se foi; o pobre do boi deixou de gostar da noite. Parou de cantar, mas queria que seus ancestrais ainda ouvissem sua música. Abandonou a noite em sua solidão e passou a usar um fone de ouvidos. Criou-se a decepção.
O boi passou tanto tempo na ilusão de estar acompanhado de seus próprios estômagos, apenas ouvindo as palavras daquele fone que nem a noite nem ninguém podia ouvir, que pareceu por elas dominado. Quase tão louco em relação à noite quando a boina em relação à moita.
Inserido. Dominado. Transformado no fone.
O fone era agora uma bolha que separou Raul da realidade que havia sido criada a partir do silêncio. Agora que Raul estava isolado de seu universo, o silêncio voltou a reinar, desta vez sobre a noite e não sobre o nada.
O silêncio também estava decepcionado, pois achou que nunca mais voltaria a existir. Mas seus filhos fizeram o universo regredir.
Toda vez que do silêncio surge o respeito e a decepção surge para destruí-lo, o silêncio retorna e a noite é a única companhia.